segunda-feira, setembro 24, 2007

Nu No Parque

Nu no Parque
Óleo sobre tela
180 x 225 cm
Erick Vön Hidelbrandt
1714

sexta-feira, agosto 24, 2007

Re-Lembro

Penso agora naqueles dias, num curto período de tempo entre a idéia, o texto e o ato. Sabia que me voltariam as tais lembranças. Ver as fotos ainda dói um tanto chato. Atormenta o quão avulso agora vejo. Eram bons aqueles tempos, coqueiros ao vento, paisagem e abraços.

domingo, agosto 19, 2007

Pula Adelaide

_Pula Adelaide.
_Tô com medo.
_Medo de que? Lá embaixo só tem água e está tão quente esse verão, você não queria nadar?
_É que a água é tão escura, parece que não tem fundo.
_É o fundo da lagoa Adelaide, as pedras são mesmo escuras lá. Pula!
_Não, eu nem trouxe meu maiô.
_Pula nua então. Só tem agente aqui, quem vai ver?
_Ora quem? Você!
_Bem, eu vou pular nu mesmo, eu não trouxe roupa de banho também.
_Não, eu não quero ver você nu... pode parar com isso.
_Então não olhe Adelaide.
_Eu vou embora então.
_Ora! Pode ir, ta com medo da água e com vergonha de mim. Eu não tenho vergonha de você não, quer ver.
_Não faz isso Kalil, não... Kalil...
_Agora é só pular.
_Você está nu! Creeedo!
_Uruuuuuuuuuuuuuuuuu... Ahahahahahha... demais! A água está uma delícia Adelaide, você não sabe o que está perdendo, vem!
_Não sei...

...

_Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...
_Que é isso Adelaide?! Você pulou!?
_Pulei... foi demais, parece que agente está voando.
_É mesmo, e a água? Não está boa?
_Uma delícia, obrigado por me trazer aqui.
_Não há de quê.
_Como se chama essa lagoa?
_O povo daqui chama de Poço dos Patos, mas nunca vi nenhum aqui!
_Será que mais gente vem pra cá?
_Eu venho sempre e quase nunca encontro gente da cidade; volta e meia tem os índios.
_Aqui tem índio?
_Tem, eles se lavam aqui quando estão de passagem.
_E se um índio aparecer agora? Ele vai ver agente nu.
_E o quê que tem? Eles também nadam nus.
_Não, espera aí, não vai me deixar aqui sozinha.
_Mas eu vou voltar.
_Não, e se eu me afogar?
_Calma eu só vou pular de novo. Você sabe nadar, não vai se afogar.
_Sei lá... uma câimbra, hipotermia, congestão, um índio... nunca se sabe.
_Poxa Adelaide, você é bem medrosa mesmo, vamos pular juntos então?!?
_Não, vamos fazer o seguinte, eu vou pular primeiro, mas você não pode olhar.
_Olhar o que mulher?
_Me olhar, estou nua não vê?!?
_Vejo, mas o que tem isso? Eu também estou.
_Tenho medo de me mostrar assim, nua.
_Olha Adelaide, quer saber... nadar com você não tem graça!

terça-feira, julho 10, 2007

Eles

Entrou de repente e sentou-se na mesa da sala, sobre a mesa mesmo, em cima de um garfo que tirou rapidamente do traseiro, derrubou um copo e as frutas da gamela. Bochechas rosadas e mil desculpas.
Depois de muito ouvir começou a falar baixinho, pra fazer chegar mais perto, cada vez mais baixo, cada vez mais perto. Dizia coisas do passado. Entre experiências profissionais, hora ou outra, surgiam amores, dois ou três amores vividos. Falou também de um tal futuro à espera, ainda no forno e “quem me dera isso e aquilo e aquilo outro”.
Estava bem perto. Dada hora suas mãos alcançaram peito, ombros e enfim costas. Quase silêncio. Envolvido e protegido, lacrado, selado. Simbiose.
Pouco depois falava tão baixo que os ouvidos estavam dentro da boca, por isso as palavras eram estalos de lábios e ranger de dentes entre úmidas línguas sobre a pele do pescoço. Sonora sopa de letrinhas. Tão silenciosa. Arrepios.
O aroma perfumado dos cabelos, que se enrolaram na boca e nos brincos, tomava fugas as narinas entorpecidas, surdas e cegas narinas. Por outro lado os olhos fechados podiam imaginar só o conjunto de dois corpos no pequeno universo obscuro da sala de jantar.
Até que então estavam os dois de alma nua, falando cada vez mais baixinho, mais pertinho...

segunda-feira, junho 25, 2007

Efêmero

Lá vinha, mulher e família, logo a frente de cabeça baixa, podia-se ver o laço de fita, sobrancelhas e sílios, a ponta do nariz e o lábio superior. Ela partia. A criança que a acompanhava abrira o portão, ela, de cabeça baixa, passava. Já a pouca distância seus cabelos pretos e mediana estatura moviam os olhos por curvas sinuosas. A via de costas. Um mísero instante era suficiente, como foi. Virou-se por segundos, uma eternidade platônica, a imagem vítrea de seu olhar a emanar a alma radiante, um pequeno sorriso, beócio, sentiu-se um doce na boca, arrepio. Olhara para traz, olhara nos olhos, e seguiu seu caminho.

quarta-feira, junho 20, 2007

Sorriu no amanhecer,
com ares ainda noturnos,
a absurda saudade pungente,
inerte aos meus apelos.
Um sonho mais que urgente
Se vai em pleno sono.
Então no calor de um beijo
Toma-me mais um inverno
Da tua boca o desejo.

Inútil

Teve as asas cortadas
E perdeu a paciência.
Por não saber de nada
Lidou com a discrepância.
Agora só de fachada
Canta sua indolência.
Mas cala-se nesta toada
Ao ver que sua mais adorada
Cantiga é a contingência.

quinta-feira, junho 14, 2007

O Outro

Sinônimo de outrem,
Talvez alguém diferente,
Talvez o avesso da gente,
O contrário, o agressor.
Soa dentro da mente
E sai poetando corrente
Entre loucura, cultura,
ódio e amor.

Um querer de dois

Dois no mesmo ato
Teu cântico entoa,
Um verbo plural
Na primeira pessoa

Soa em uníssono
Mais que o podemos,
Visto que um querer,
de dois, é queremos.

Brasil S.A.

Pobre estado,
Escravo do mundo civil.
A meu mundo sem rumo
és bem, mãe gentil.
A meus filhos, préstimo,
Empréstimo e fome servil.
Tudo és Pátria Amada S.A.
_Brasil!

Boa Noite

Consumo assim minhas noites
Aceso em profundo sono
Sem dor ou calafrio,
Sem caos, livre, sem dono.

Sonhando tenho asas invisíveis
Que me elevam ao infinito
Posto em minha alma
Sem eco de nenhum grito

Durmo assim que minha mente,
À vista de velhas paisagens
Brote de flores e cactos
Arco-íris de boa viagem

Penso até quando
Posso estar voando,
Estar viajando,
Sonhando,
Sonhando,
Sonha...Soooooonha

quinta-feira, maio 31, 2007

As Paixões

em tardes
cinzas de outubro,
por flores
de rochoso abismo,
viver se embrenhando
em paixões,
dessas
sentidas a êsmo.



quarta-feira, abril 18, 2007

Francesca Rimini

Disse a quem quer que ouvisse
tal dama italiana,
que de Dante tomou a comédia,
que sua mais dolosa tragédia
fora o fôrro de sua paixão,
fora então do varão Malatesta,
seu próximo querer,
queria por querer,
autocomiseração,
do próprio músculo cardíaco,
de seu romance paralelo
compulsivo e maníaco.

quinta-feira, abril 12, 2007

A Velha Inveja, o Novo

Graça, viúva açogueira,
Juntou-se com Jonas da feira
Pra vender melões recheados
De carnes tiradas do bucho
Da caça de alguns veados.

Disse Marta, a vizinha,
E tudo disse sozinha,
Que aquela nova iguaria,
Falou-se na sacristia,
Do diabo era heresia.

Fez-se um rebu do escambal
Por esta que até passou mal
Em pensar que sua mercearia
Muito cliente perdia
Praquela tal feitoria.

Marta na rua gritava,
Sua inveja já não se agüentava:
_Não comam desse feitiço!
Que vendo barato por isso
O mais gostoso chouriço!

Mas Graça muito ardilosa
E Jonas também todo prosa
Vendiam melões trabalhados,
Faziam a boa cozinha
Ora Cozidos, ora assados.

Num domingo corriqueiro,
Feito à pimenta de cheiro,
Chamaram o padre a um jantar.
Não sabendo como negar
Foi o mesmo experimentar.

_Deus! Como pode ser...
Disso eu nunca saber...
Dizia o padre satisfeito:
_Pois esse cozido é o jeito
Que se tem de comer direito.

Comeram daquilo o doutor,
O padeiro, o banqueiro, o pintor...
_Eita comida bem feita!
Com a língua assim satisfeita
Saiam pedindo a receita.

Refogue com manjericão
Alho, cebola e açafrão
Sal aplique com muito cuidado
O sabor do caldo é adoçado
Quando tudo estiver escaldado.

Faça tudo em fogo médio,
Faça arroz pra livrar-se do tédio,
E atente ao minuto marcado,
Vinte e cinco é suficiente
Pra não comer caldo queimado

Virou o invento notícia,
Veio gente até da Suíça
Pra aguçar o paladar.
Uns comiam até dormir
E pediam até pra levar

E Marta então revoltada,
Não mais que uma pobre coitada,
Com Graça foi reclamar.
De tanto ódio pungente
Não pôde nem argumentar.

Agora vê se pode,
A outra fazer tal pagode
Por pouco não mais vender.
São apenas os melões
E o bucho que há de conter.

Esqueceu Marta de certo
Que todo prato bem feito
Por muito é acompanhado,
Arroz, feijão, azeite
Bebidas e alho picado.
E tudo se encontra pertinho
Na venda de Marta,
Que está logo ao lado!

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Olhos de Liberdade

Apenas um toque
De lábios e olhares
E no peito renasce um sonho
E voando estou em mil lugares

As asas se abrem ao horizonte
Agora em teus olhos me liberto
E ainda que eu voe adiante
Teus lábios são destino certo

Ao ter-te sou livre do mundo
e sinto ser mais um segundo
Fatal sem você por perto


(momento água com açúcar/primavera 2003)

O TEMPO

O tempo é um desenhista
que igual nunca se viu
No mesmo suporte rabisca
anos e anos a fio
Desenha rugas e pelos
que você nunca sentiu
Com uns ele é cruel
com outros é gentil
E como não posso o tempo
mandar a puta que o pariu
É melhor envelhecer
Que da vida perder o pavio.

terça-feira, dezembro 12, 2006

O Dia

Nem toda manhã vai ser de sol
Nem vai chover todo dia
Nem toda manhã vai acordar triste
Nem vai ser só de alegria

Nem toda tarde vai ter muito trabalho
Nem vai ser só descansar
Nem toda tarde vai haver um velório
Nem sempre alguém nascerá

Nem toda noite você vai ao cinema
Nem sempre vai ver a novela
Nem toda noite vai dormir no escuro
Nem sempre haverá luz de vela

Nem todo dia é santo
Nem mesmo pode ser um inferno
Nem todo dia é de pranto

Nem todo sofrimento é eterno.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Não-amor

Que mal em ser amado sem amar?
Mais vale o prazer de ser amado
Que não ter alguém do lado.

Ou vale mais amar sem cobrança?
Ser leal, ter confiança.

Que tal reciprocidade?
Amor de dois, amor de verdade.

Amor? Quem sabe mais tarde!

domingo, outubro 08, 2006

Prazer Barato

Orgasmos múltiplos,
Palavras excitantes na cabeça da gente,
Sentindo todos os prazeres
Ponho-me a ti presente
E me entrego assim contente
Para livrar-me de uma torpe dor,
Sou assim em dias de festa
E é nestas que nada me resta,
Sou frágil, mas bom ator.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Vida

Ela chegou
Você nasceu
Se ganhou nome
O nome é seu
Se teve fome
Você comeu
Tava pequena
Você cresceu

Ela parada
Você andou
Ela calada
Você falou
Se dolorida
Você chorou
Ficou feliz
Você animou

Se não sabia
Você que leu
Ela estudou
Você aprendeu
Foi distraída
Você perdeu
Ela treinada
Você venceu

Ela isolada
Você juntou
Enamorada
Você casou
Quando eram duas
Unificou
Agora em três
Familiarizou

Ela no tempo
Envelheceu
Cabelo preto
Embranqueceu
Do que lembrava
Se esqueceu
Ela acabou

E você morreu.

quarta-feira, agosto 30, 2006

DA GOTA AO GOSTO

A gota que feroz fere a folha
É a mesma que alimenta a planta,
Planta na pradaria o suor do céu,
A Planta então ferida
Mata a sede e revida,
Esta mesmo brota flores
E se mostra então a cores
Ao revelar mil sabores,
De pêra, uva, macã
Goiaba, papaia, romã...

domingo, agosto 20, 2006

Eclipse

Estavam o Sol e a Lua
A discutir a relação
Após um encontro eclíptico
Numa tarde de verão.

Disse então a Lua ao Sol:

Individualista!
Sol sem fim,
Posto ao firmamento,
Dia-a-dia reina
Sem cessar por um momento,
Mas sozinho, sem conselhos,
Sem senado ou parlamento.

Respondeu o Sol a Lua:

Preguiçosa!
Cheia de vaidade,
Mingua descuidada,
Nova destraída,
Cresce aparecida,
Deixa só estrelas frias
A tomar conta da vida.

PUB-MUNDO

O mesmo dia-a-dia
somado com o stress
causado pelo caos
e a cadência do texto
corrido a mão,
misturam substâncias nocivas
fazendo mal ao coração.

Vide-bula,
O Pub-mundo da miséria
faz miséria com seus
olhos, ouvidos,
corpo inteiro.

Vide-lacre,
Na tampa da beira da loucura,
sorrisos,
gemidos,
depoimento verdadeiro.

Fala-se em inglês, francês, alemão
árabe, chinês e as línguas do Japão
inventam a nova linha de
som, vídeo e televisão.
Com garantia garantida
até a próxima estação.

Imaginação

Imensurável espaço
Em nossa inércia bipolar,
Distância de centro oco
Cheio de algum lugar,
Simples complexo
Do ideário comum,
Natural nexo
Sem sentido nenhum,
Inexiste ao tempo
E pelo mesmo morre,
Estende-se ao infinito
E sem pernas
Por ele corre.